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Um melodrama pornô soft.


blog O Cinema Sallva, abril 2021, Lua de Fel (EUA-UK-FRA, 1992)

Roman Polanski reparou a capa de um romance em edição de bolso sobre a mesa do produtor Alain Sarde. Era uma jovem voluptuosa de costas nua intitulado Lunes de Fiel, livro publicado em 1981 por Pascal Bruckner, um prolífico autor, ensaísta e pensador político.


Sarde comentou que só recentemente tinha adquirido os direitos de filmagem, mas não tinha planos específicos para a obra. Polanski levou o livro para casa, leu da noite para o dia, e, na manhã seguinte, telefonou para Sarde dizendo que queria filmar o livro. Em uma semana, os produtores Alain Sarde e Timothy Burril concordaram com um modesto orçamento de cinco milhões de dólares para realizar o que agora se chamava Bitter Moon (Lua de Fel, EUA-UK-FRA, 1992).

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O roteiro é fiel ao romance. Aborda um escritor americano fracassado, bêbado e literalmente paralítico, Oscar (Peter Coyote), que se aproxima de um inglês chamado Nigel (Hugh Grant) num navio de cruzeiro pelo Mediterrâneo para contar-lhe a história de sua vida. Escrito em dois meses, o roteiro tem colaboração de Gérard Brach e Jeff Gross, mesmo roteirista de Busca Frenética (Frantic, EUA-FRA 1988), filme anterior de Polanski.

Lua de Fel foi alvo de críticos de Polanski, que o acusaram de ter feito um filme pornô grotesco, com um enredo improvável e de mau gosto sobre um garota, não mais do que uma menina, envolvida com um expatriado esquisito, velho o bastante para ser seu pai. Parecia o exemplo mais descarado da explícita tendência do diretor em adaptar acontecimentos pessoais para seus filmes.


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Os mesmos críticos não perderam a chance de comparar a impressionante semelhança entre uma cena-chave de Lua de Fel e uma passagem das memórias de Polanski em que ele oferece uma descrição detalhada de uma relação de amor com sua primeira mulher. No filme, Oscar observa Mimi (Emmanuelle Seigner) sair da cama e ficar parada diante da janela, nua, enquanto uma voz entoa, no estilo de prosa exagerado do protagonista:


"Nada jamais chegou a superar o êxtase daquele primeiro despertar. Podia ser Adão com um o gosto da maça fresco ainda em minha boca. Eu olhava para toda a beleza do mundo aperfeiçoada numa única forma feminina."


Polanski, contudo, nega consistentemente que haja referências autobiográficas em quaisquer dos filmes que dirigiu.


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O papel principal foi ofereceido a James Woods, que recusou ao ler o roteiro, depois a Jack Nicholson e Michael Douglas, porém Polanski deu o papel a Peter Coyote, de 49 anos. Segundo o livro Polanski: Uma Vida, de Christopher Sandford, depois que Coyote leu o roteiro, Polanski mandou um fax para ele perguntando: "Você sabe a diferença entre erotismo e pornografia? No primeiro, você usa apenas a pena. No segundo, você usa a galinha inteira." Coyote replicou: "E como você chama quando usa o avestruz inteiro?"


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Além do desafio de combinar as vidas profissional e doméstica, Polanski também se defrontava com a complicação adicional de dirigir Emmanuelle Seigner, sua esposa, em algumas cenas de amor singularmente potentes. Num chocante e pouco ortodoxo ritual de café da manhã, por exemplo, a personagem de Seigner baba uma boca cheia de leite sobre seus seios nus para o benefício de Coyote, prelúdio de um energético exercício de felação. No meu podcast O Cinema Sallva falei mais sobre o filme:



Lua de Fel foi lançado em 12 de julho de 1992. Como melodrama pornô soft, a obra acresce por apresentar clássicos temas polanskianos: corrupção moral, violência, voyeurismo, comédia negra, claustrofobia crescente e alguma sátira cultural divertida envolvendo americanos no estrangeiro.


blog O Cinema Sallva, abril 2021, Lua de Fel (EUA-UK-FRA, 1992)

Lua de Fel (EUA-FRA, 1992)

2h19min

roteiro Patrícia Andrade, Gérard Brach, John Brownjohn e Jeff Gross

direção Roman Polanski

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