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Filmado sem retakes.


blog O cinema Sallva, março 2022, Ela Quer Tudo (EUA, 1986)

Estreia de Spike Lee no roteiro e na direção, Ela Quer Tudo (EUA, 1986) foi rodado em apenas 12 dias e sem retakes – algo ousado e arriscado para um diretor iniciante.


O longa é uma típica obra underground com um prólogo apresetando uma citação do romance de Zora Neale Hurston chamado "Seus Olhos Viam Deus", escrito em 1937:

"Navios ao longe levam os desejos dos homens. Para uns, eles vêm com a maré. Para outros, navegam no horizonte sempre à vista, sem atracar, até que o espectador desvie o olhar, os sonhos mortos pela zombaria do tempo. Assim é a vida dos homens. Já as mulheres esquecem o que não querem lembrar e lembram tudo que não querem esquecer. O sonho é a verdade. Então elas agem de acordo com isso."

Em 2014, Lee admitiu numa entrevista seu profundo arrependimento por ter incluído a cena de estupro entre Jamie (Tommy Redmond Hicks) e Nola (Tracy Camilla Johns). "Foi totalmente estúpido. Eu era imaturo.", explica o diretor. "Fazia pouco caso de estupro e eu odeio não ter visto isso como o ato vil que é". A obra está na lista dos "1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer", de Steven Jay Schneider. Em 2017, foi adaptado para o formato de série, disponível na Netflix.

Abaixo, eu escolhi quatro cenas de Ela Quer Tudo para exemplificar a gramática audiovisual empregada. Há conceitos como decupagem, flashforward, inserções e plano-sequência. As cenas estão disponíveis em meu Twitter.


blog O cinema Sallva, março 2022, Ela Quer Tudo (EUA, 1986)

1) Nesta cena com 1'18'' de duração, temos dois planos interrompidos por uma inserção não diegética usada para apresentar o nome da personagem: Clorinda Bradford (Joie Lee). No primeiro corte, a câmera faz uma panorâmica à esquerda do quadro em busca de Clorinda, enquanto vemos o ambiente da cena: um sala pequena com estante de livros, uma poltrona e um contrabaixo acústico perfilado à esquerda. A personagem está de costas para a câmera com um máquina de costurar à frente dela. A câmera aproxima-se, de modo a enquadrar apenas ela e a máquina. Ela vira-se para a câmera, quebrando a quarta parede, e suspira. No segundo corte, ela fala diretamente para câmera em tom confessional sobre a relação dela com a protagonista do filme, Nola (Tracy Camilla Johns)). O diretor replicará esse recurso de quebra de quarta parede para apresentar todos os demais personagens.


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2) Nesta sequência de 1'17'', decupada em sete planos, assistimos ao pesadelo de Nola em forma de flashforward. No primeiro plano, a câmera movimenta-se vagarosamente em direção à fechadura de uma porta. A maçaneta gira por diversas vezes. No segundo plano, mais aberto, a porta abre-se de onde saem três mulheres. No corte seguinte, em plano americano, essas três mulheres caminham em direção ao canto esquerdo do quadro. No quarto plano, Lee adota o contra-plongée dessas mulheres falando em tom acusatório. Corta-se rapidamente para um contraplano delas de costas, enquanto ao fundo vemos Nola deitada, dormindo numa cama. É um plano rápido, usado apenas para nos ambientar do contra-plongée empregado anteriormente: essas mulheres estão falando com Nola. Corta. Volta ao plano anterior, uma das mulheres acende um fósforo e aponta em direção à câmera, que nos remete ao plano subjetivo de Nola. Do fogo do fósforo, parte um fade abrupto para uma imagem em tela cheia de chamas aludindo à incêndio. No último corte, vemos Nola levantando-se da cama e gritando: "fogo!". Através de uma boa decupagem, o diretor consegue contar um terrível pesadelo.


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3) A inserção diegética deslocada é empregada através de fotos still nesta sequência de 1'49'' no intuito de ilustrar o metrô como forma de deslocamento do personagem. Primeiro Jamie (Hicks) recebe a ligação de Nola, que o convence a ir visitá-la. A seguir, vemos 10 fotos still, a maioria desfocada, mostrando Jamie entrando e saindo de um vagão de metrô. No plano seguinte, Nola abre a porta para Jamie entrar.


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4) O filme termina com este plano-sequência de 1'31''. A quebra da quarta parede mais uma vez é estabelecida: Nola fala com cumplicidade para a câmera, que a acompanha até a cama, onde ela deita-se. Em seguida, a câmera afasta-se centralizado a cama, as cobertas e as velas ao fundo. A curiosidade aqui é que Lee optou por começar e encerrar o longa com o mesmo plano: o início é matutino com Nola levantando-se da cama; o final é noturno, com Nola deitando-se.


blog O cinema Sallva, março 2022, Ela Quer Tudo (EUA, 1986)

(EUA, 1986)

1h30min

roteiro e direção Spike Lee

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