Verossimilhança


A verossimilhança é um conceito dramatúrgico muito antigo, que remonta à Poética, de Aristóteles. Ele dominou todo o período dito clássico do teatro e influenciou, em seguida, as diferentes concepções do roteiro de filme. É verossímil tudo o que tem aspecto da verdade e tudo o que é provável.

Na dramaturgia clássica, é verossímil o que, nas ações, nas personagens e na representação, parece verdadeiro ao espectador. O respeito ao verossímil impõe inventar uma ficção e motivações que produzirão o efeito e a ilusão de realidade.

A regra da verossimilhança vale sobretudo para uma dramaturgia normativa, fundada na ilusão, na razão e na universalidade dos conflitos e dos comportamentos. Claro, não há em si verossimilhança imutável que se possa definir de uma vez por todas. O verossímil é apenas um conjunto de codificações e de normas ideológicas, ligadas a um momento histórico.

No cinema, o verossímil concerne à representação e à narração. O mundo representado é verossímil se estiver conforme à imagem que o espectador pode fazer do mundo real. Quanto à narrativa, seu modo verossímil repousa, por um lado, em princípios gerais (causalidade e de não contradição), por outro, em convenções de gênero e nas regras implícitas que elas pressupõem.

O Tradutor (2018), dirigido pelos irmãos Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso, é baseado numa história verídica do pai deles, Manuel Barriuso. Ele é incorporado no personagem Malin (Rodrigo Santoro), um professor de literatura russa que é obrigado pelo governo cubano a trabalhar como tradutor na ala infantil de um hospitais de Havana. Acompanhamos Malin tentando se adaptar à nova realidade no trabalho ao passo que lida com Isona (Yoandra Suárez), sua esposa que está grávida, e o filho deles. Nesta cena, que que você pode assistir aqui disponível também no nosso Twitter @sallvafilmes, Isona anuncia a gravidez para Malin durante a rotina doméstica e, portanto, verossímil do casal.

Cão Sem Dono (2007), dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, é uma adaptação do livro Até o Dia em que o Cão Morreu, escrito por Daniel Galera. Vemos a história de Ciro (Júlio Andrade), um jovem recém formado em letras que ganha a vida como tradutor e vive acompanhado apenas de seu cachorro, Churras. Ciro sofre um abalo depois que Marcela (Tainá Müller), uma modelo vítima de uma doença terminal, entra na sua vida. O longa é marcado tanto verossimilhanças das situações como também pela naturalidade dos personagens, como nesta cena aqui, quando Ciro almoça com os pais enquanto assistimos à conversa entre eles em um único plano.

Dirigido por Laís Bodanzky, Como Nossos Pais (2017) é centrado em Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher de 38 anos que se encontra em uma fase difícil de sua vida, marcada por conflitos pessoais e geracionais. Ela descobre, por meio de sua mãe (Clarisse Abujamra), que seu pai biológico não é quem ela sempre achou que fosse. A partir de então, Rosa passa a enfrentar diversas crises de relacionamento com suas filhas, seu marido Dado (Paulo Vilhena), colegas de trabalho e seu chefe. Nesta cena aqui, vemos a forma verossímil como o longa expõe o cotidiano de Rosa ao acordar de manhã e educar as filhas.

Com roteiro e direção de Woody Allen, Setembro (1987) é uma espécie de cine-peça. Sua história compreende 24h na vida de seis pessoas dentro de uma casa no estado de Vermont, nos Estados Unidos, em fins de agosto. Temos Lane (Mia Farrow), uma mulher sensível que decidiu regressar a Vermont para recuperar-se de problemas pessoais. Ela alugara o chalé da casa para um aspirante a escritor, Peter (Sam Waterston), por quem se apaixona de maneira não correspondida. Ele, por sua vez, se apaixona por Stephanie (Dianne Wiest), melhor amiga de Lane, que passe as férias de verão na casa. Um vizinho da propriedade, Howard (Denholm Elliott), sofre por amar Lane e não ser correspondido. Completam o elenco a mãe de Lane (Elaine Stritch) e seu novo marido (Jack Warren). Com seis pessoas e um enorme conflito de interesses, vemos de maneira verossímil questionamentos sobre a felicidade, as relações pessoais e existencialismo, como nesta cena aqui, quando Lane fica aborrecida ao saber que sua mãe não quer mais venda a casa em Vermont.


4 Filmes Verossímeis

1. Setembro, Woody Allen (EUA, 1987)

2. Cão Sem Dono, Beto Brant e Renato Ciasca (BRA, 2007)

3. Como Nossos Pais, Laís Bodanzky (BRA, 2017)

4. O Tradutor, Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso (CAN-CUB, 2018)

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